16 de julho de 2015

ADOTADO, BÓRIS


ADOTADO, para ler até ao fim, obg Salomé Dias
BÓRIS
 
 
"Lembro-me perfeitamente quando nas vésperas do Natal de 2013 nos ligaram que um cachorro tinha sido atropelado e deixado para trás. Mais um, pensei eu. A passarmos por uma fase complicada na associação e sem dinheiro não virámos as costas. Lá fui eu contigo de noite para o Hospital. Eras lindo e já com a tua personalidade de rezingão. Sim, ainda me lembro que me mordeste quando estávamos na sala de espera. Lembro-me tão bem como eu pensava para mim mesma "é incrível como não consigo ter paz, nem à noite, sempre a aparecer cães". Ficaste entregue ao melhor sítio, com os melhores profissionais, em que eu continuo a acreditar cegamente no que me dizem.
No dia a seguir estavas melhor, já sem dores, mas eu só te fui visitar dois dias depois. As radiografias revelaram uma vértebra quebrada e a única hipótese era tentar uma cirurgia à coluna, caríssima e com poucas probabilidades de resultar. Com uma dor no coração não autorizei a cirurgia, era demasiado cara para os efeitos que teria. Três semanas depois, já em 2014 fui buscar-te e, mais uma vez, não sabíamos o que fazer contigo, lá tiveste que ficar em minha casa. Saí a pensar "é um cão paraplégico, por isso alguém vai ter pena de ti e vai adotar-te", mas com recomendações de fazer fisioterapia em casa e de tentarmos reabilitar os músculos para que, mesmo sem conseguires andar, conseguisses movimentar-te e subir escadas. Trouxe os teus exames e mostrei-os a todos os médicos mas o prognóstico era sempre o mesmo: vértebra quebrada = paraplégico.
Lá começou a nossa saga diária: massagens nos músculos, pano na barriga e caminhar. Em seis meses desisti tanta vez, naqueles dias em que saia ao sábado mas mesmo assim tínhamos que trabalhar, fosse de tarde ou madrugada dentro. Pensei tanta vez que queria que tivesses morrido no acidente, tanta, mas tanta vez. Odiei-te e fartei-me de ti tanta vez. Até naquelas vezes em que te magoei e tu me mordias. Mas depois eu abraçava-te e tu gostavas. E ficávamos no jardim, o único sítio onde não escorregavas, a olhar um para o outro e quase a desistir, eu e tu. Seis meses depois, altura da festarola da terra, eu olhei pela janela e tu estavas em pé encostado à parede. Foi festa em casa também e foi quando percebi que o nosso esforço nunca é em vão e que as horas e horas de choro, de tristeza e de quase desistir já não faziam sentido. Foi quando eu tive a certeza que merecias o nome de Bóris, o nome do cão mais especial que tive até hoje e que eu acreditava que tu também eras.
Semanas depois tu já não andavas, já corrias e saltavas e quando te levei ao Hospital ninguém acreditava que fosse possível. A vértebra quebrada continua lá, mas às vezes a vontade é maior. Tantas discussões criaste lá em casa, porque fazias xixi em todo o lado, porque às vezes mordias, porque estragavas as árvores, porque espalhavas a comida, por isto, porque aquilo...
A tua adoção tornou-se urgente, mas um ano e meio depois lá continuas em minha casa e as minhas esperanças que encontrasses um lar definitivo quase não existiam. Sabia que um dia ias para o abrigo. Até que um dia recebo uma chamada a dizer que gostaram do Bóris na fotografia, contei como eras, contei a tua história e no dia seguinte foste conhecer a tua casa nova. Estás tão feliz agora. Chorámos os dois quando te foste embora mas sei que tinha que ser e que estás melhor agora, as condições são as ideais para ti.
Estás grande e lindo, com a mesma personalidade rezingona de sempre, mas continuas a ser o único cão que conheço que adora abraços. Vais ficar sempre no meu coração e também sei que fico no teu. O que passámos juntos só acontece de vez em quando, a luta que travámos é rara mas os resultados são únicos.
Quero que no resto da tua vida sejas tão feliz quanto mereces e que a merda das pessoas que te puseram na rua não o sejam.
Tenho saudades de te ver pela janela, e as meninas cá de casa também têm, mas mandam beijinhos.

Da tua família de acolhimento,"

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